12 out 2026 · redes, iot, segurança · 4 min
Uma cafeteira não envia um terabyte em dez dias
Para uma cafeteira mandar 1.008 GB em dez dias, ela precisa fazer 2.089 pedidos HTTPS por segundo. Sem parar. Nem para fazer o café.
A conta vem do caso da Keurig K-Supreme SMART que um técnico encontrou no roteador dos pais e publicou no X em 6 de outubro. O aparelho aparecia no UniFi com 9,94 GB de download e 1.008,45 GB de upload em dez dias e nove horas, uma média de 9 megabits por segundo subindo. A Tom’s Hardware e a Cybernews cobriram. O dono desligou o aparelho e, dias depois, notou que quase tudo não saiu da rede dele: era lixo local, provavelmente bug na pilha de rede, e um reboot resolveu.
Faltava responder quanto custa, em bytes, uma consulta normal de um aparelho desses.
O que uma consulta custa
Montei um servidor TLS local, um proxy que conta bytes e um par de mensagens típicas: um corpo de telemetria de 64 bytes subindo e uma resposta de estado de 74 bytes descendo.
| cenário | bytes no fio |
|---|---|
| primeira conexão (aperto de mão mais pedido) | 5.083 |
| pedido reaproveitando a conexão | 538 |
O aperto de mão TLS custa caro: 4.545 bytes que só existem na primeira vez. Depois disso, cada ciclo de consulta cabe em 538 bytes.
Com esses dois números dá para projetar quanto tráfego um aparelho gera por mês, só variando a frequência:
| intervalo entre consultas | conexão nova (MB/mês) | reaproveitando (MB/mês) |
|---|---|---|
| 1 s | 13.175 | 1.395 |
| 5 s | 2.635 | 279 |
| 15 s | 878 | 93 |
| 60 s | 220 | 23 |
| 900 s | 15 | 1,6 |
Um aparelho que manda telemetria de verdade fica nas últimas linhas. A cafeteira do caso estava na primeira, e ainda assim não chegava.
A conta que não fecha
1.008 GB em dez dias e nove horas dá 1.124.498 bytes por segundo. Dividido pelos 538 bytes de um ciclo reaproveitado, são 2.089 ciclos por segundo. Com conexão nova a cada vez, 221 apertos de mão TLS por segundo.
bytes_total = 1008 * 10**9
segundos = 10*86400 + 9*3600
print(bytes_total / segundos) # 1124498 bytes por segundo
print(bytes_total / segundos / 538.2) # 2089 ciclos por segundo
Nenhuma cafeteira faz 2 mil pedidos por segundo. Telemetria de receita de café é um envio a cada algumas horas, no máximo. O número é de um processo travado inundando a rede local, não de espionagem nem de mineração. Bate com o que o dono concluiu: reboot, rede separada, e o problema não voltou.
A máquina de lavar da LG que apareceu em 2024 mandando 3,6 GB por dia, segundo a Tom’s Hardware, fica na faixa que eu medi, 41 KB por segundo, mas em outro patamar: vinte e sete vezes menos que a cafeteira.
O que fazer com isso
Tráfego de rede é uma métrica que você consegue checar antes de comprar teoria. Roteador com contagem por aparelho mostra isso em um fim de semana. Se um aparelho manda mais que algumas dezenas de MB por dia, alguma coisa está errada, e a resposta quase nunca é “ele está me espionando”.
Separar os aparelhos numa rede própria, sem acesso à sua, é o controle barato. E vale lembrar que o aperto de mão de 4.545 bytes que eu medi é o mesmo que qualquer cliente HTTPS paga, coisa que desaparece de vista quando o TLS funciona sem você notar.
Ressalva: os 538 bytes vêm de um par de mensagens que inventei para representar telemetria mínima. Aparelho real manda payload maior. O que sustenta a conta é a ordem de grandeza, não o número exato.
Minha opinião é que o caso vale menos como alerta de espionagem e mais como mostra do custo de um bug que ninguém corrige. O processo fica enviando num aparelho sem botão de debug, e só aparece quando alguém abre o painel do roteador. Quando aparece, o desfecho é o de sempre: reboot, e um certificado que ninguém olha continuando a validar o tráfego que o bug gera.